O Arquivo em Cartaz – Festival Internacional de Cinema de Arquivo – visa, a cada edição anual, valorizar a memória do cinema brasileiro, promover o debate a respeito da importância e da urgência da preservação e acesso aos acervos audiovisuais e incentivar o uso destes documentos de arquivo em novas produções cinematográficas, bem como incentivar iniciativas para capacitação em preservação e processamento técnico de documentos arquivísticos. Este ano o tema do festival é a etnografia e as expressões etnográficas registradas em filmes e imagens em movimento. Uma definição clássica de cinema etnográfico consiste na documentação fílmica dos comportamentos humanos, de modo que as atitudes das pessoas e a natureza de
suas culturas ali estejam representadas e interpretadas. Assim, os filmes produzidos podem ser “lidos” como documentos e retratos de um povo ou de uma época, mas também como construções artísticas carregadas de energia e significação.
Os primeiros filmes etnográficos registravam técnicas materiais e rituais, principalmente de povos “exóticos”. Continham, sobretudo, um caráter descritivo, em que as imagens funcionavam como arquivos sobre sociedades em grande medida não europeias, descrevendo as técnicas, o habitat, o artesanato, as diferentes formas de agricultura, os rituais, as cerimônias.1
No Brasil, uma parte importante de filmes de natureza etnográfica foi produzida por organismos de governo, a exemplo do Serviço de Proteção aos Índios – SPI, no início do século XX, que acumulou significativo acervo de imagens e se caracteriza, principalmente, por retratar diferentes situações: paisagens e vistas do posto, indígenas e suas famílias em frente às suas habitações, atividades produtivas tradicionais (fabricação de farinha, tecelagem), construções e